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NO DESERTO DA INTERNET

Fonte: Isto É - Online
Data: 20/02/2002

A imensa estrutura criada para suportar a rede mundial está mais
de 80% ociosa. A demanda não veio como era previsto. E agora?

Duda Teixeira

 

Uma constelação de satélites próxima à linha do equador recebe as chamadas telefônicas de uma localização remota e envia as ondas sonoras para o outro extremo do globo. No fundo do mar, cabos submarinos recheados de fibras ópticas transmitem relatórios empresariais, planilhas de cálculos e vídeos entre cinco os continentes. Totalmente a salvo de abalos sísmicos e inundações, fortalezas digitais (datacenters) se encarregam de armazenar o volume gigantesco de informações que é produzido em todo o mundo. Uma paisagem maravilhosa, desenhada pelas curvas de crescimento exponencial da internet, estava prevista para se materializar em 2001. Não veio. Nem vai se tornar realidade tão cedo. Hoje, em pleno ano de 2002, 80% da estrutura dos datacenters está ociosa. Na rede de cabos a situação não é diferente: 80% permanece sem uso. Quanto ao sistema de satélites, chegou-se até a cogitar seu completo extermínio, já que o número total de assinantes não chega sequer a 1% do total de usuários de telefonia móvel. Construiu-se demais, e os consumidores se interessaram de menos. “Estava todo mundo eufórico achando que esse mercado ia deslanchar em 2001”, diz Eduardo Gomes, diretor de tecnologia e produção da Globalstar. “Mas não foi como se esperava. Nem aqui nem em nenhum outro lugar.”

No Brasil, nada menos que US$ 4 bilhões foram gastos em infra-estrutura entre 1999 e 2001. Mas, tanto aqui como no resto do mundo, várias companhias que investiram pesado em infra-estrutura viram seus planos de negócios se esfacelarem quando perceberam que a demanda ia demorar mais para crescer. A filial brasileira da Globalstar, que lançou 52 satélites no espaço, sofreu com o alto preço das tarifas e dos equipamentos (US$ 2 mil), que acabaram espantando os clientes. Mais tarde, no início de 2000, veio o pedido de concordata da matriz. Entre os que enterraram cabos de fibras ópticas ligando várias cidades, os desastres também se multiplicaram. Em janeiro deste ano, a Global Crossing, que em 2000 ligou o Brasil à sua rede de mais de 200 cidades no mundo, pediu concordata nos Estados Unidos, mas manteve as operações no Brasil. A GloboCabo, que provê estrutura em banda larga e serviços de TV paga, está à procura de um interessado em comprar sua rede e a BarraMar, que implantou fibras ópticas em 13 rodovias paulistas, transferiu o controle acionário para a Alcatel, sua principal credora. “O que eles fizeram é parecido com o que as empresas ferroviárias adotaram nos Estados Unidos em 1860: criaram infra-estrutura à frente da demanda”, diz Grant Smith, analista do Yankee Group em Miami.

Nos datacenters, o País teve de enfrentar a vinda da americana PSInet que, em pouco mais de um ano, adquiriu 11 provedores de acesso nacionais. Em 2001, sua matriz pediu concordata e deixou as operações nacionais à deriva. De resto, Telefônica, Telemar, Diveo, EDS, OptiGlobe e ComDomínio disputam palmo a palmo um mercado ainda pequeno, que utiliza apenas 20% das suas máquinas, segundo o IDC. Entre os que optaram por vender acesso ao consumidor final no Brasil, a Inter.net praticamente desistiu de seu antigo negócio. “Houve superdimensionamento em todos os níveis. O provedor imaginava uma coisa com os dados de aumento dos usuários de internet, o fornecedor corria atrás e, no final, todo mundo se viu em dificuldades”, diz Clovis Lacerda, da Inter.net. “Foi como um efeito dominó.”

Para quem se manteve de pé, um novo jogo está começando este ano. Muitos tentam mudar as regras do próprio negócio. A Globalstar adaptou sua estrutura para transmitir dados para empresas brasileiras. A Inter.net está usando sua rede para atender prédios no Recife. Ainda não é possível saber se as empresas acharão um oásis no horizonte. “Nenhuma companhia consegue facilmente mudar seu foco de negócios”, lembra Smith, do Yankee. Desta vez, pelo menos, ninguém espera que a demanda chegue às alturas em dois anos.

  

Projeto AltasOndas                                                                              Washington D.C., 2005